segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

As contribuições da Linguística ao ensino de língua portuguesa


Autor: Nayara dos Santos Ramos

            O presente trabalho apresenta algumas considerações sobre as mudanças ocorridas no ensino de Língua Portuguesa após a instituição dos Parâmetros Curriculares Nacionais e a difusão cada vez maior das teorias da Linguística Moderna. 
Na primeira parte trataremos da nova abordagem dada ao ensino de Língua Portuguesa, no Ensino Médio desde a elaboração dos PCN, neste ponto veremos a nova expressão do processo ensino aprendizagem sugerida pelos PCN baseada nas teorias linguísticas e na constatação de um ensino de Língua Portuguesa insuficiente para a formação discursiva e intelectual dos discentes.
Em seguida apresentaremos a definição da Linguística Funcionalista, bem como suas contribuições para o ensino de Língua Portuguesa no que concerne a importância dada por esta corrente ao emprego da linguagem, como instrumento de comunicação e
a necessidade de se trabalhar com este aspecto da língua em sala de aula.
No terceiro tópico faremos uma breve reflexão sobre o que vem a ser a Sociolinguística e qual o seu objeto de estudo, discorrendo assim sobre quais as possíveis contribuições que esta corrente pode trazer para o ensino de Língua Portuguesa.
 Seguindo a linearidade dos temas vamos, no último tópico, apresentar as várias concepções de gramática, demonstrando que elas se completam e precisam ser trabalhadas nessa condição com os discentes. Vamos também fazer uma breve reflexão sobre o uso da Gramática Normativa nas aulas de Língua Portuguesa e demonstrar a importância da norma como garantia da continuidade de uma língua.
Este sugere que é possível e necessário, trabalhar a língua materna à luz das contribuições das teorias linguísticas de maneira satisfatória focando o exame dos fatos da língua – problemas reais em fatos observáveis – sem desprezar o exame das gramáticas.

1.1  O ensino de Língua Portuguesa nos PCNs (Ensino Médio)
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), elaborados pelo Ministério da Educação e Cultura, vieram para nortear a prática pedagógica do professor em sala de aula, oferecendo-lhe subsídios para repensar o ensino da língua e alcançar uma aula mais eficaz e centrada no aluno como sujeito da aprendizagem, e não como objeto.
Com a elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais, a discussão e a reflexão a cerca do processo ensino aprendizagem de Língua Portuguesa ganha novo entusiasmo, no sentido de desenvolver práticas mais eficazes no ensino da língua.

“O estudo gramatical aparece nos planos curriculares de Português, desde as série iniciais, sem que os alunos, até as séries finais do Ensino Médio, dominem a nomenclatura. Estaria a falha nos alunos? Será que a gramática que se ensina faz sentido para aqueles que sabem gramática porque são falantes nativos?A confusão entre norma e gramaticalidade é o grande problema da gramática ensinada pela escola. O que deveria ser um exercício para o falar/escrever/ler zmelhor se transforma em uma camisa de força incompreensível” (PCN, 2000: 16)

A nova reescrita do processo de ensino aprendizagem prioriza no ensino de língua portuguesa o desenvolvimento, no aluno de Ensino Médio, de uma competência Linguística, cuja essência não se pauta na exclusividade do domínio técnico do uso da língua “padrão”, mas, sobretudo, no saber empregar a língua na sua diversidade, levando em consideração o contexto interativo.
Neste ponto, os PCN assumem a língua como produto e instrumento de comunicação, de persuasão, de expressão, de simulação, enfim, das manifestações humanas, pois segundo os PCN, “O caráter da Língua Portuguesa deve ser basicamente comunicativo”(p.17), e neste contexto ressalta que apenas o aprimoramento das habilidades Linguísticas é que podem preparar o aluno para o uso da língua em diversos contextos sociais.
Os PCN, apontando para o uso da língua com o fim de estabelecer eficácia comunicativa, propõe ao ensino de LP o desafio de viabilizar a formação do aluno como ser crítico e comunicativo.
A situação formal da fala/escrita na sala de aula deve servir para o
exercício da fala/escrita na vida social. Caso contrário não há razões
para as aulas de Língua Portuguesa.(PCN, 2000:22)

Portanto os objetivos do ensino de língua são oferecer aos discentes, através da realidade vivida ou conhecida por este, preparo para enfrentar os desafios do futuro. Neste contexto, o maior desafio seria o desenvolvimento de competências necessárias a uma interação autônoma e participativa nas situações de interlocução, leitura e produção textual, e nesta conjetura é que os PCN concebem o texto como o responsável por desenvolver as competências de interação.
A unidade básica da linguagem verbal é o texto, compreendido como a fala e o discurso que se produz, e a função comunicativa, o principal eixo de sua atualização e a razão do ato Linguístico.
O aluno deve ser considerado como produtor de textos, aquele que pode ser entendido pelos textos que produz e que o constituem como ser humano (...) O homem visto como um texto que constrói textos (PCN, 2000:18)

A proposta dos PCN, adotando a visão Interacionista, concebe a prática de produção textual, como um processo que requer outro participante, um leitor, ou seja, o processo de escrita deve propor situações em que o aluno possa exercitar as práticas sociais de compreensão e produção de textos (oral e escrito) e de análise/reflexão da língua (oral e escrita) em situações lingüisticamente significativas, em situações de uso de fato, deste modo, não basta proporcionar atividades de escrita de qualquer tipo de texto, mas, o produtor de texto deve incorporar as dimensões discursivas, incluindo desta maneira os interlocutores, as relações que existem entre eles, a partilha dos mesmos conhecimentos Linguísticos, as condições sociais de produções reais dos textos, as intenções e especificidades de cada texto daí a importância desta prática para a construção de significados e dos processos comunicativos.
Focados na elaboração de sentidos textuais os conteúdos gramaticais passam, a ser
tratados como conhecimentos de acesso ao competente e eficiente desempenho linguístico, em outras palavras é nas produções textuais que vão residir os conteúdos gramaticais e é através destas produções que os discentes vão desenvolver seu potencial discursivo. Os PCN incitam também o contato com os mais diversos gêneros textuais, são estes textos jornalísticos, receitas, bulas entre outros que devem ser trabalhados em sala de aula levando em conta os fatores sociais envolvidos em sua produção, circulação e recepção, as motivações pragmáticas que o tornam uma manifestação sócio-histórica, as relações intertextuais, o diálogo que trava com outras expressões verbais circulantes na comunidade Linguística, enfim, todas as instâncias envolvidas na variação e produção
de uso da língua.
  Os PCN procuram associar o trabalho com gêneros, temas transversais, gramática e ortografia no sentido de capacitar os discentes para analisar, elaborar, comunicar suas idéias com clareza sendo capazes de usar a língua em variadas interações e assim continuar aprendendo ao longo da vida.
 E é neste espaço dialógico em que locutores se comunicam que se encontra a literatura, a gramática e a produção textual nos PCN, ou seja, estão inseridos em uma perspectiva maior e além de definições e práticas de fixação de normas. Na verdade, as chamadas aulas de gramática passam a compor o conjunto de atividades de análise e reflexão sobre a língua, como suporte e subsídio das práticas de leitura, produção, revisão e reprodução de textos.
            Ao contrário de alguns pensamentos os PCN não são contra o ensino de gramática, nem tão pouco a aboliu do ensino de língua portuguesa, simplesmente eles não a apontam como um meio para desenvolver a leitura, a escrita e a oralidade.

“Quanto mais dominamos as possibilidades de uso da língua, mais nos aproximamos da eficácia comunicativa estabelecida como norma ou a sua transgressão” (PCN, 2000: 21)

Em outras palavras, ao professor, não basta apenas conhecer a gramática tradicional, mas estar apto a desenvolver métodos que possam ampliar as competências comunicativas dos alunos em sala de aula.
            Contudo, o docente dificilmente vai alcançar os objetivos propostos pelos PCN, se não for capacitado para tal, pois embora, os PCN recomendem as práticas discursivas, tais práticas exigem conhecimentos de Linguística e de metodologias apropriadas para tal. Assim, ensinar e aprender língua portuguesa nesta nova perspectiva requer sujeitos – professores e alunos – reorientados e preparados.

1.2  As contribuições da Linguística funcionalista
A Linguística pode ser conceituada como a ciência que estuda as manifestações da linguagem humana, e como qualquer ciência descreve seu objeto como ele é. O objeto de estudo da Linguística é a língua, que para Saussure, possui um lado individual e um lado social, sendo impossível conceber um sem o outro.
O avanço desta ciência possibilitou a compreensão do funcionamento da linguagem bem como a formação e evolução das línguas faladas, estes tópicos - língua, linguagem, fala, são a base para as pesquisas e teorias Linguísticas que com o passar dos anos surgiram com o intuito de estudar cientificamente a linguagem.
Os estudos Linguísticos se dividiram em diversas correntes entre as quais se destacaram o estruturalismo, o gerativismo e o funcionalismo. Na Linguística estrutural desde o início, com a publicação do pensamento saussuriano na obra clássica Curso de Linguística gera, predominou a análise e definições de elementos isolados, como as célebres dicotomias semiologia/Linguística; signo: significado/significante; arbitrariedade/linearidade; linguagem: língua/fala; sincronia/diacronia; sintagma/paradigma e a noção de valor, desse modo o estudo da língua acabou ficando descontextualizado e se restringiu apenas ao aspecto estrutural, chegando ao máximo das análises fonológicas, morfológicas e sintáticas da língua. Este método acabou por servir como modelo para a criação de uma gramática de definições exatas, na qual o ensino de língua passou a ser regido por normas que se tornaram o conteúdo, inquestionável, de ensino.
Deixando de observar mais profundamente os aspectos semânticos, pragmáticos, sociais, discursivos e cognitivos que mais tarde foram inseridos aos estudos científicos da língua em detrimento das regras, criou se, então, a idéia de língua correta e apropriada em face de outra incorreta e deselegante.   
Nasce aqui o preconceito Linguístico, não ocasionado pelo estruturalismo, cabe aqui esclarecer, mas por causa da roupagem dada ao ensino de língua portuguesa através de normas gramaticais incontestáveis.
Sem fazer relação com a realidade e predominando a análise de frases soltas e descontextualizadas essa metodologia para o ensino de LP revelou se falha, quando constatou se que o educando apenas como sujeito passivo do padrão normativo, mostrou se inapto para interagir nas diversas situações sociais e incapaz de explicitar suas opiniões, neste sentido os estudos Linguísticos modernos e em especial a corrente funcionalista, que é a que vamos nos ater,  têm papel fundamental para o ensino de língua, pois além de revelar o funcionamento e o aspecto mutável e vivo da língua também pode direcionar o educador para novas práticas em sala de aula no que concerne ao ensino de LP. Vale, neste ponto, ressaltar que não é papel da Linguística propor orientações metodológicas para os docentes de LP, porém é através dela que estes poderão conceber o todo linguístico e melhorar as práticas de ensino em sala de aula.
É importante ressaltar que a Linguística em nenhuma de suas correntes jamais figurou o ensino de LP como um agrupamento de normas, de acordo com o que conhecemos de Linguística podemos afirmar que esta acomoda todas as formas de linguagem, ou seja, não centraliza seu estudo apenas no uso da norma culta da língua, mas endossa inclusive que é na pronúncia dos falantes que reside às inovações linguísticas que quando aceitas pelos demais falantes acaba por convencionar se e tem seu uso disseminado levando à mutação (evolução) da língua.
O funcionalismo é uma abordagem linguística que dá importância aos propósitos inerentes ao emprego da linguagem, em miúdos a linguagem é definida como instrumento de comunicação e interação social e seu objeto de estudo é a utilização da língua em situação comunicativa, este enfoque é abalizado pela concepção de que a língua não pode ser considerada totalmente independente de seus fatores externos, pois a gramática de uma língua é dinâmica e flexível, assim, a tarefa de descrição Linguística deve alcançar o exame das circunstâncias discursivas que envolvem as estruturas linguísticas e seus contextos de uso. Em outras palavras quando se fala em funcionalismo, insiste se, sobretudo na análise linguística que considera metodologicamente o componente discursivo, dada a sua função prioritária na gramática de uma língua, desse modo o funcionalismo analisa a estrutura gramatical tendo como referência a situação comunicativa inteira: o propósito do ato de fala, seus participantes e seu contexto discursivo. Por esse entendimento é que para essa corrente as estruturas linguísticas precisam ser fundamentadas nas situações reais de comunicação.
Nesta conjuntura o estudo da língua deve incluir o aspecto funcional como uma rede de relações, a gramática de uso, essencialmente natural, e na qual tudo pode ser explicado pelo uso, isso porque o paradigma funcional considera que as expressões linguísticas não são objetos funcionais arbitrários, mas têm propriedades determinadas pragmaticamente, no circuito da interação verbal humana, ou seja, a pragmática é o quadro dentro do qual a semântica e a sintaxe devem ser estudadas.
Na sala de aula, a abordagem funcionalista, trata as questões gramaticais como uma questão interativa, inserida em um contexto e analisando as intenções, destarte questões gramaticais passam a ser trabalhadas de forma que se leve em conta a diversidade linguística presente em sala de aula. Com certeza essa é uma das principais contribuições da corrente funcionalista para o ensino de LP, pois como propõe os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio, as questões Linguísticas devem ser trabalhadas em sala de aula com vistas a atender aos propósitos pragmáticos e comunicativos do aluno, considerando o ambiente histórico social em que ele está inserido. A partir da prática de análise e reflexão sobre a língua espera se que os alunos aprimorem a sua capacidade de compreensão e expressão, em contextos de comunicação oral ou escrita. Para esta prática os parâmetros propõem o exame das estruturas regulares mais presentes no desempenho discursivo, nota se então uma preocupação em investigar os usos linguísticos com a intenção de facilitar o processo de ensino aprendizagem da língua materna.  De tal modo percebemos que a abordagem funcional da língua equivale aos parâmetros estabelecidos para o estudo da LP no Ensino Médio, fato este que só vem afirmar que a Linguística funcional tem muito a contribuir com o ensino de LP.
            Ao demonstrarmos as contribuições da Linguística funcionalista para o ensino de LP não podemos deixar de citar que recentemente tem havido certo avanço no que diz respeito ao preconceito linguístico, a partir da investigação de usos Linguísticos em sala de aula. A partir das novas conquistas teóricas no campo do funcionalismo tem havido maior valorização das variedades de língua, levando, inclusive em consideração, aspectos sociais, culturais, situacionais e demográficos do educando.
As contribuições da Linguística Funcionalista no ensino de língua Portuguesa pode entre outras colaborar para a formação crítica do cidadão, pois ela possibilita que a sala de aula se torne um espaço para discussão e análise de questões interativas, em contextos reais, carregado de intenções e produção de sentido. Nesse enfoque o educando não é apenas sujeito passivo, mas alguém que interage linguísticamente e extraLinguísticamente conhecendo além dos sentidos, as intenções do falante, refletindo no como, para que se diz e adequando os vários níveis de linguagem a determinados ambientes e situações, destarte o educando conhecendo e compreendendo o funcionamento de sua língua, em diversos níveis e em diversas situações, poderá utilizá-la de maneira adequada e ampliar os recursos que possui, no sentido de explorar as potencialidades de sua língua, em toda e qualquer situação de uso.
Embora já possamos vislumbrar algumas mudanças no ensino de LP é importante comentar que ainda há um longo caminho a se percorrer visto que a influência da Linguística no ensino de Língua Portuguesa ainda não repercutiu diretamente nas práticas pedagógicas em sala de aula, sobretudo, as que se referem ao Funcionalismo Linguístico, e o estudo da LP ainda se apresenta sob a forma de disciplinas como Gramática, Literatura e Redação nas quais se priorizam a norma pouco flexível e burocratizada e a escrita ao invés da oralidade. Porém é importante acentuar que em meio a muitas análises fonéticas, sintáticas entre outras, já existe uma preocupação, através dos PCN, com o funcionamento interativo em práticas discursivas no sentido de desenvolver no educando competências e habilidades discursivas bem como a noção de língua como algo real, dinâmico e mutável.

1.3  As contribuições da Sociolinguística
Todas as línguas apresentam um dinamismo inerente, o que significa dizer que elas variam de acordo com sexo, etnia, faixa etária, origem geográfica, situação econômica, escolaridade, história, cultura, entre outros, de cada falante. A diversidade Linguística é o objeto de estudo da Sociolinguística, umas das subáreas da Linguística que estuda a língua como um fenômeno social.

A Sociolinguística é uma das subáreas da Linguística e estuda a língua em uso no seio das comunidades de fala, voltando a atenção para um tipo de investigação que correlaciona aspectos da sociedade, focalizando precipuamente os empregos linguístico concretos, em especial os de caráter heterogêneo.
(MOLLICA & BRAGA, 2007:09)

            Destarte podemos inferir que a Sociolinguística analisa os aspectos sociais com o objetivo de entender a estrutura das línguas, bem como o seu funcionamento. As línguas mudam todos os dias, evoluem, e embora a Linguística estruturalista tenha defendido que a língua era um fenômeno social: "Ela é a parte social da linguagem, exterior ao indivíduo [...]; ela não existe senão em virtude duma espécie de contrato estabelecido entre os membros da comunidade" é importante ressaltar que essa corrente, assim como o gerativismo que surgiu anos depois, não analisou o processo de variação preferindo, a primeira, enveredar pela idéia de que a língua é um sistema de códigos e que deve ser analisada estaticamente no tempo e a segunda defendendo um comportamento verbal uniforme baseado na idéia de uma gramática universal e inata, em decorrência de uma gramática internalizada que nada tinha a ver com a sociedade, mas com o “cérebro” do falante.
            Essas teorias foram de suma importância na investigação das estruturas das línguas, e por ter o seu enfoque nas estruturas é que foi preciso imaginar a língua como algo estático, que não varia de um falante para o outro, contudo é necessário aclarar que essa visão de língua foi apenas idealizada.
            Os estudos sociolinguísticos comprovam que nas línguas há variação por toda parte, prova disso é que existem muitas línguas diferentes no mundo, isso porque a língua acompanha de perto a evolução da sociedade, que varia em função do tempo e do
espaço. Como afirma Mollica & Braga (2007), Todas as línguas apresentam um dinamismo inerente, o que significa dizer que elas são heterogêneas.
A Língua Portuguesa assim como todas as outras línguas humanas, é também heterogênea, passível de variação, mudanças, e sofre a influência de vários fatores linguísticos e extralinguísticos. Isto significa dizer que a nossa língua não está pronta, e que se encontra, assim como toda língua, em permanente processo de variação.
Nessa perspectiva, trabalhar a língua em sala de aula é mostrar aos alunos, os discursos variados que fazem parte da sociedade e fazê-los compreender a variação linguística não como “erros”, mas como “diferenças” comuns a toda língua falada.
As pesquisas Sociolinguísticas oferecem embasamento para esta prática e mostra que é possível incluir os alunos, principalmente os pertences a classes sociais menos favorecidas, que normalmente são alvos de preconceito ou sentem que o Português da escola é uma língua estrangeira, de forma satisfatória das práticas sociais que demandam conhecimentos linguísticos diversos.
Os estudos sociolinguísticos permitem aos alunos refletir sobre o uso das diversas variedades Linguísticas existentes no País, presente nos diversos gêneros textuais tanto na modalidade oral quanto na escrita (padrão e não padrão) compreendendo, inclusive que todas as variedades Linguísticas são legítimas e próprias da história e da cultura humana. O que também não significa o abandono ao ensino da língua culta, pois essa é uma variação importante e que, de acordo com a Sociolinguística, também possui seu contexto de uso.
Desse modo a partir do momento em que este aluno sentir que sua variedade Linguística não consiste em um “erro” e sentir que esta é valorizada e é, inclusive, objeto de estudo em sala de aula, esses alunos poderão se tornar usuários muito mais competentes quanto aos diversos usos da língua, sabendo optar forma de fala ou de escrita adequada a cada situação comunicativa, sem esquecer-se de analisar o contexto de cada produção sabendo adequar a variedade de língua e o estilo às diferentes situações comunicativas e o mais importante, respeitando a variação linguística do outro.

1.4  As contribuições da gramática
Na antiguidade Greco-romana, a concepção de gramática manifestou se, como o conjunto de regras de bom uso da língua. Saber gramática, no entanto, seria o mesmo que dominar as normas usadas nas composições dos grandes autores da época. O exame das obras desses escritores levou os gramáticos a sancionar essas regras para quem desejasse escrever em grego ou latim. Desenvolveu-se assim a gramática prescritiva de uma norma culta que excluía os textos, considerados, não literários e a língua oral que não seguisse os padrões aprovados.
Nasce assim, a Gramática normativa, aquela que sistematiza os dados linguísticos da norma culta de uma língua e apresenta normas de bem falar e escrever, esta é tradicionalmente usada em sala de aula e por não levar em consideração os diferentes níveis de linguagem, tem nos últimos anos, adquirido um caráter um tanto absolutista no sentido de apontar o “correto” e o “incorreto” no uso da língua.
No campo de estudos linguísticos, no entanto, não existe apenas essa concepção, pois como há muito se discute sobre a relevância do ensino de gramática na Língua Portuguesa, novas concepções surgiram, foram descartadas e substituídas em busca de soluções.
São estas a, Gramática descritiva que consiste na descrição sistematizada dos princípios de organização de uma língua ou de uma variedade da língua, levando em conta o plano sincrônico, no sentido de descrever a estrutura interna da língua e compreender seu funcionamento, esta também é chamada Gramática Funcional. A análise descritiva de qualquer variedade de língua pode resultar em gramática descritiva de modalidade falada ou escrita, de acordo com os estudos linguísticos a Gramática Descritiva serve de base de apoio para a elaboração da gramática a ser levada para a sala de aula. A Gramática internalizada que é o próprio mecanismo de regras ou conjunto de regras que os falantes dominam e que lhes possibilita o uso normal da língua durante a comunicação. A Gramática Universal que é o tipo de gramática que permite aos estudiosos investigar os traços linguísticos comuns em todas as línguas do mundo. A Gramática Histórica que possui caráter diacrônico e estuda as diferentes fases pela qual passa uma língua no transcorrer do tempo e a Gramática Comparada que também possui caráter diacrônico e através da comparação, estuda uma sequência de fases evolutivas de duas ou mais línguas de um mesmo grupo linguístico, na busca por pontos em comum.
Em outras palavras, pode se dizer que todas as concepções gramaticais são válidas e se complementam  no curso do ensino, pois se a norma é importante, descrevê-la e conhecer o seu uso é igualmente necessário, assim como conhecer a existência das variações Linguísticas, ter contato com outros gêneros textuais e conhecer o caráter diacrônico da língua.
Entretanto cada uma dessas concepções está em conformidade no que diz respeito ao ensino de língua não depender única e exclusivamente do aprendizado de regras e termos gramaticais fixos presentes na Gramática Normativa, no entanto, esta não precisa ser abolida do Ensino de Português ou mesmo substituída, o que precisa haver é uma renovação no ensino de gramática, uma renovação na maneira de ver a gramática da língua portuguesa, pois esta pode sim ser trabalhada em sala de aula, como afirma os PCN, mas de maneira contextualizada e sem que ela seja o foco principal das aulas de LP.
“O estudo de Gramática pode ser um instrumento para exercitar o raciocínio e a observação: pode dar a oportunidade de formular e testar hipóteses; e pode levar à descoberta de fatias dessa admirável e complexa estrutura que é uma língua natural. O aluno pode sentir que está participando desse ato de descoberta, através de sua contribuição à discussão, ao argumento, à procura de novos exemplos e contra-exemplos cruciais para a testagem de uma hipótese dada. Nesse sentido a gramática tem imensas potencialidades como instrumento de formação intelectual
(PERINI,2001:32)
           
            Embora o ensino de Gramática Tradicional ainda não possua uma prática fundamentada na análise linguística voltada em especial para os componentes textual e discursivo da linguagem, ao docente conhecedor da teoria linguística, pode se afirmar que não é impossível trabalhar esses elementos linguísticos em sala de aula.
            E embora a Gramática Normativa não esteja alcançando os objetivos de ensino por si só, é importante lembrar que as normas são e sempre foram importantes para fundamentar tanto as pesquisas linguísticas, como para garantir a sobrevivência da própria língua. Sem as normas não há como manter viva a língua de uma nação, pelo próprio caráter mutável da língua, e caso não houvesse essa “uniformidade” linguística, até certo ponto, garantida pelas normas não haveria como garantir a comunicação entre os falares de épocas diferentes e nem mesmo a identidade de um povo, pois fatos como a história, cultura, arte entre outros pontos perderiam se na característica evolutiva dessa língua.

REFERÊNCIAS
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FERREIRA, Norma Sandra de Almeida.  Ainda uma Leitura dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa. Revista IBEP, O ensino de Língua Portuguesa, julho de 2001.
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MOLLICA, Maria Cecília; BRAGA, Maria Luíza. Introdução a Sociolinguística: o Tratamento da Variação. 3 ed. São Paulo: Contexto, 2007.
OLIVEIRA ,Mariangela Rios de; CEZARIO Maria Maura. PCN à luz do funcionalismo Linguístico. Linguagem & Ensino,v.10,n.1,p.87-108,jan./jun.2007
PERINI, Mário A. Gramática Descritiva do Português. 4 ed. São Paulo: Ática, 2001.
SILVA, Leilane Ramos da. Correntes Linguísticas: notas sobre o formalismo e o
funcionalismo. Revista da Fapese, v.3, n. 1, p. 57-64, jan./jun. 2007.









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